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terça-feira, 21 de junho de 2011

O vestido.- Frantz Ferentz

O xeque Yamín comprou por uma carrada de milhões de dólares o vestido de certa atriz norte-americana. Enviou um representante a um leilão para comprá-lo nos Estados Unidos, porque, para ele, obter aquele fato significava dar sentido à sua vida. Sempre tinha estado namorado da atriz, embora tivesse morto cinquenta anos atrás. Além disso, queria fazer ranger os dentes de inveja dos seus amigos mais próximos, outros xeques e vultos da Península.

Quis depois organizar uma festa surpresa. Para isso montou um palco como o do filme mais famoso da atriz, aquele onde precisamente vestia esse vestido branco que voava quando um respiradouro do metro lançava uma lufada de ar para acima. Chegou a recriar um simulador do respiradouro, mas o que lhe faltava era, precisamente, o cabide, uma mulher esplêndida que pudesse levar aquele vestido.

Muito pensou o xeque nisso. Algumas das suas doze ou treze esposas (nem lembrava o número exato, como tampouco não sabia o número de filhos que tinha) era realmente formosa, mas como teria que se expor diante de homens, haveria levar o vestido branco por cima do hidjab. Não, definitivamente, não ficava bem. Outra opção era utilizar um daqueles paneleiros que eram terrivelmente efeminados e que, com as pernas depiladas, até podiam parecer uma mulher, mas se calhar algum irmão da fé podia lamentar-se do espetáculo.

Porém, o objetivo do xeque era impressionar aqueles seus amigos e camaradas chegados de todos os recantos da Península, demostrar-lhes que ele era o mais rico e o possuidor duma joia que todos eles quereriam possuir, embora tivesse pertencido a uma infiel.

Assim, sujeitou o vestido com fios de náilon, fez com que a lufada de ar começasse a soprar desde o respiradouro. Uma iluminação ténue fazia salientar o vestido entre a penumbra que o rodeava. Porém, algo não saiu como estava previsto. Quando a cortina do palco foi retirada, o vestido não estava sujeito por náilons, mas uma mulher idêntica à atriz morta levava-o posto. Ela olhava para eles com os lábios vermelhos e a pele imensamente branca, mostrando até as coxas mentres o vestido se alçava.

O impulso de todos os camaradas do xeque foi imediato. Todos se lançaram como possessos sobre o vestido, tentando possuí-lo. O xeque Yamín foi o último que reagiu, mas já foi muito tarde. Quando chegou até o vestido, este não era mais do que farrapos sujos espalhados pelo chão. O xeque, com os olhos cheios de lágrimas, pôde ver então como o fantasma da atriz morta cinquenta anos atrás se elevava pelos ares com um sorriso enigmático, como se tivesse interpretado o seu último papel.


© Frantz Ferentz, 2011

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