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domingo, 19 de junho de 2011

Imune.- Frantz Ferentz

O Pierpaolo tinha uma paixão na vida: a poesia. E como consequência dela, tinha outra: as mulheres. Isto não é o que parece, porque o Pierpaolo fora fiel à sua dona vinte e cinco anos da sua vida, embora tivesse apaixonado dúzias de mulheres ao longo da sua carreira literária. 

Esta era, precisamente, a chave. Gostava de apaixonar mulheres, mas não para depois ter uma relação com elas. Tinha virado uma espécie de caçador de corações, mas não para depois tirar proveito, não, simplesmente para os conquistar. Uma volta ganhados, já não os queria. Essa crueldade final era a razão do seu prazer.

Para conquistar uma dona, usava a sua poesia. Nunca na sua vida publicou um só livro de poesia. Ele apenas escrevia versos de paixão sublime que fazia chegar às vítimas escolhidas. A vítima, aos poucos, caía rendida aos seus pés. Apaixonava-se por aquele insigne poeta, aquele ser divino, aquele homem que, com certeza, sabia elevar a alma até aos céus. O Pierpaolo sempre escolhia mulheres casadas ou, pelo menos, com casal fixo, as quais, quando caíam rendidas, pediam ingenuamente o divórcio ou a separação aos seus maridos ou casais. E o poeta cabrão, quando tinha a sua presa aos pés, vencida e divorciada, ignorava-a.

Aquele ser fingia uns sentimentos elevados que nem remotamente possuía. De facto era aquilo uma vingança por aquele primeiro amor que nunca calhou. Embora chegasse a casar-se, o Pierpaolo decidiu vingar-se de todo o género feminino. A sua dona, coitada, não sabia nada daquelas atividades do seu homem, daquele contável rigoroso e rotineiro que se fechava no escritório da casa para fazer contas e contas, sem imaginar que entre cálculo e cálculo compunha versos de paixão mortal. Pelos restos, depois ia com os seus cadernos feitos em casa, com agrafos e capas de cartolina, ao café mais literário da cidade, onde contatava com as suas vítimas e as conquistava até as privar da sua dignidade de mulheres. Assim, uma após outra iam caindo naquela morte lírica, como ele a chamava, enchendo o ego daquele ser que em qualquer parte teria passado despercebido, salvo no inferno.

Até que conheceu a Lavínia. Quando a viu pela primeira vez com aquela amiga no café literário, o Pierpaolo pensou que com aquela mulher alcançaria o summum da sua carreira de assassino lírico. Era uma deusa, espetacular, duma beleza impossível de definir. Quase até começou a se sentir atraído por ela, mas teve cuidado de reter os seus sentimentos, não fosse que chegasse a se apaixonar e aí a sua vida perdesse todo o seu sentido.

Gostava de como soava o riso da Lavínia, provocador e fresco. Não lhe custou especialmente achegar-se até ela e dar-lhe a conhecer os seus versos, como sempre fazia. Ela mostrou-se interessada neles, mas também cumpre dizer que o Pierpaolo intensificou a força da sua escrita, porque aquela mulher divina era uma peça ainda mais cobiçada e, portanto, requeria duns versos diferentes. Além disso, com a Lavínia comunicava-se em inglês, porque ela era dum país da Europa do Leste. Embora pudesse ler os versos do Pierpaolo na língua original, a comunicação entre o homem e a mulher ficou estabelecida em inglês. E foi assim que ela lhe falou do Leo:

— I will show Leo your poems. Leo also loves poetry.

O Pierpaolo estava acostumado. Muitas das suas vítimas chegavam a mostrar os seus poemas aos seus maridos, o qual ainda tornava as cousas mais interessantes. Sorriu perante a visão do Leo a ler os seus poemas.

— Leo is fascinated with your poetry, Pierpaolo... 

Pola primeira vez, também um homem ficava enganchado à sua poesia. A situação era totalmente nova. Aquilo era um desafio para ele. Gostava da nova experiência.

— Leo and I spent the whole night reading your poems...

Aquilo já começava a ser mesmo estranho. Como era possível? Mas o mais complicado de compreender veio quando ela disse:

— Leo and I made love like never before surrounded by the echo of your verses.

O Pierpaolo não percebia. Pela primeira vez na sua vida, os resultados eram os contrários do esperado. Não conseguia namorar a sua vítima de si próprio, mas tudo acontecia inesperadamente, a Lavínia parecia cada vez mais namorada do seu Leo... graças aos seus versos!

Finalmente um dia ela disse-lhe:

— Leo is looking forward to meeting you.

Isso nunca tinha acontecido, que o casal duma das suas eventuais vítimas quiser conhecê-lo, mas o Pierpaolo sentia-se curioso, queria conhecer aquele Leo que gozava da leitura de versos com aquela deusa. Por isso, aceitou.

— Pierpaolo, this is Leo.

O Pierpaolo ficou a olhar para aquele homem com traços efeminados que lhe tendia a mão e que estava a tomar um café vienense. O Leo, porém, sim falava italiano fluído.

— Encantado de o conhecer, Pierpaolo.

O Pierpaolo já apenas tinha uma dúvida:

— E diga-me, o seu nome Leo, donde é que vem? De Leopolodo ou de Leonardo?

— De Leocádia, vem de Leocádia. Mas eu sempre prefiro Leo... Assim até soa mais misterioso, não acha?

© Frantz Ferentz, 2011

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