Páginas

domingo, 26 de junho de 2011

À sombra do sete.- Frantz Ferentz

O Tiago nasceu em 07.07.77. Talvez por isso o sete tornou-se o seu número da sorte. Já desde bem pequeno compreendeu que toda a sua vida viraria arredor desse número. Com sete anos começou a perceber a realidade ainda mais a partir desse número, foi capaz de tomar as suas decisões (era a idade que dizem que é do uso da razão). Não perdeu a sua virgindade até os catorze anos (portanto, sete e sete) e não começou a trabalhar até os vinte e um (é dizer, sete, sete e sete). Sempre tentou ter sete amigos e quando quis viver sozinho, procurou um apartamento que estivesse no portal sete e mesmo no sétimo andar, embora não tivesse elevador.

Ele sabia que a sua grande oportunidade na vida viria com o sete. Não é que fosse um homem de estudos nem tivesse uma formação que o permitisse desenvolver uma carreira espetacular. Apenas fizera estudos de secundário e depois buscou a vida como pôde, sem se preocupar demais, porque tinha a certeza de que o sete guiaria os seus passos, quando chegar o momento. O mais provável seria quando tiver vinte e oito anos, porque seria a união de quatro setes na sua vida.

E assim foi. Já com vinte e oito anos, foi com um amigo a um estranho bar da periferia da cidade onde preparavam um coquetel exclusivo da casa. Era verão, estava bom tempo, a gente gostava de se refrescar nas esplanadas depois dos dias tórridos de calor. O Tiago leu na carta de bebidas que o famoso coquetel se chamava Seven delights. Embora o seu inglês for muito fraco, entendia perfeitamente aquele seven. Era o sinal aguardado. Na sua mente surgiu a ideia de que aquele seven delights deveria ser tomado durante sete dias consecutivos, porque, além disso, faltavam sete dias para o seu dia de anos, quando já faria vinte e nove anos. Não, não era por acaso.

Precisamente aquele dia era segunda-feira. O projeto era tomar um seven delights a cada serão. Naquela segunda feira tomou o primeiro coquetel. Era forte, dum gosto intenso. O Tiago não estava afeito às bebidas alcoólicas daquela maneira. Após o quinto gole, estava bêbedo, totalmente bêbedo. Quando abriu os olhos na madrugada da terça feira acordou na cama duma conhecida modelo. Não lembrava nada, mas sim sentiu a humidade nos seus genitais. Ela, ao acordar, simplesmente sorriu.

Visto que aquele era o plano do destino, naquele serão voltou à esplanada e pediu novamente um seven delights. A história repetiu-se, embebedou-se e amanheceu na cama da sua própria chefa, quem, já desperta, olhava para ele com olhos ternos. Aquilo teria bons resultados lavorais, com certeza.

Na quarta-feira repetiu coquetel. Despertou na cama da mulher do primeiro-ministro (conhecia pelas fotos onde ela aparecia do braço do seu homem). Antes de ir embora —tinham dormido num hotel qualquer—, ela deu-lhe um maço de notas de quinhentos euros e despediu-o com lágrimas nos olhos.

Na quinta-feira, depois do coquetel, apareceu na cama da primeira mulher que se tinha namorado, uma companheira do liceu duma beleza indescritível que nunca reparara nele. Ela despediu-se dele dizendo: "Fui uma estúpida..."

Na sexta-feira, depois de se embebedar, amanheceu no trapézio dum circo, com uma acrobata nua que ainda suspirava pelo que se lembrava da noite anterior e que o pousou no chão como se fosse uma pluma.

No sábado bebeu de novo. Despertou na cama dum hotel de luxo com um rei árabe do sul que o abraçava ternamente ainda a roncar. Ele foi embora na ponta dos pés, querendo esquecer aquele triste evento. Seria um segredo.

No domingo chegou um bocadinho mais tarde do habitual à esplanada. Quando pediu o habitual seven delights, já duas esplêndidas mulatas gémeas olhavam para ele com paixão. O Tiago pensou que, talvez, seriam elas as encarregadas de amanhecer com ele. Seria uma experiência interessante, visto, aliás, que era a sétima noite e que na segunda-feira já a sua vida seria outra. No entanto, lamentava não lembrar nada do que acontecia desde que se embebedava até que acordava no dia seguinte, mas tinha a certeza de que deviam ser momentos de sexo sem controlo.

Quando já na segunda acordou, o Tiago não via nada. Tudo estava escuro. Bem logo descobriu que estava fechado em algo que parecia um ataúde. Estaria enterrado vivo? Apalpou-se por todo o corpo, se por acaso tivesse o telemóvel consigo. Felizmente tinha-o numa algibeira. E tinha bateria. Ótimo. Parecia que havia mesmo rede. Marcou o número das emergências. Uma voz tediosa respondeu no outro lado da linha.

— Oiça, estou enterrado vivo, não sei onde é que estou.

— Amigo —disse o outro—, são as três da madrugada. Não me venha com brincadeiras de mau gosto, eh?

— As três da madrugada? Mas em que dia é que estamos?

— Hoje já é segunda, mas vá dormir, quer?

E pendurou. O pobre Tiago não percebeu nunca o que tinha acontecido. Porém, aquilo era o resultado lógico de não ter respeitado a regra do sete. Se ele o tivesse sabido! Aquelas duas mulatas quiseram que ele tomasse um coquetel com cada uma delas. Coitado. Ele, entusiasmado com a ideia de fazer um trio nem pensou que não cumpria a regra e tomou dous coqueteis seguidos. Foram dois coqueteis num só dia, em total, oito coqueteis em sete dias. E o destino castigou-o por não ter sido sete coqueteis em sete dias.


0 0 0


O responsável pela planta abriu uma caixa de madeira em que se efetuava um envio de telas. O fedor que saia dela fê-lo pensar que ali dentro não havia qualquer tela, mas algo orgánico. Quando abriu a caixa, encontrou o corpo ainda vivo do Tiago, esvaído, e também fezes por todo o espaço. Seguro que o tipo cagara de terror. O responsável não pôde evitar um sorriso. Aquilo levava o selo das duas mulatas viciosas e psicopatas que trabalhavam ali e que gostavam de montar orgias com desconhecidos para depois fechá-los em caixões para enviá-los ao outro extremo do mundo. Porém, este teve sorte. Estava metido numa caixa marcada 7777.


© Frantz Ferentz, 2011

terça-feira, 21 de junho de 2011

O vestido.- Frantz Ferentz

O xeque Yamín comprou por uma carrada de milhões de dólares o vestido de certa atriz norte-americana. Enviou um representante a um leilão para comprá-lo nos Estados Unidos, porque, para ele, obter aquele fato significava dar sentido à sua vida. Sempre tinha estado namorado da atriz, embora tivesse morto cinquenta anos atrás. Além disso, queria fazer ranger os dentes de inveja dos seus amigos mais próximos, outros xeques e vultos da Península.

Quis depois organizar uma festa surpresa. Para isso montou um palco como o do filme mais famoso da atriz, aquele onde precisamente vestia esse vestido branco que voava quando um respiradouro do metro lançava uma lufada de ar para acima. Chegou a recriar um simulador do respiradouro, mas o que lhe faltava era, precisamente, o cabide, uma mulher esplêndida que pudesse levar aquele vestido.

Muito pensou o xeque nisso. Algumas das suas doze ou treze esposas (nem lembrava o número exato, como tampouco não sabia o número de filhos que tinha) era realmente formosa, mas como teria que se expor diante de homens, haveria levar o vestido branco por cima do hidjab. Não, definitivamente, não ficava bem. Outra opção era utilizar um daqueles paneleiros que eram terrivelmente efeminados e que, com as pernas depiladas, até podiam parecer uma mulher, mas se calhar algum irmão da fé podia lamentar-se do espetáculo.

Porém, o objetivo do xeque era impressionar aqueles seus amigos e camaradas chegados de todos os recantos da Península, demostrar-lhes que ele era o mais rico e o possuidor duma joia que todos eles quereriam possuir, embora tivesse pertencido a uma infiel.

Assim, sujeitou o vestido com fios de náilon, fez com que a lufada de ar começasse a soprar desde o respiradouro. Uma iluminação ténue fazia salientar o vestido entre a penumbra que o rodeava. Porém, algo não saiu como estava previsto. Quando a cortina do palco foi retirada, o vestido não estava sujeito por náilons, mas uma mulher idêntica à atriz morta levava-o posto. Ela olhava para eles com os lábios vermelhos e a pele imensamente branca, mostrando até as coxas mentres o vestido se alçava.

O impulso de todos os camaradas do xeque foi imediato. Todos se lançaram como possessos sobre o vestido, tentando possuí-lo. O xeque Yamín foi o último que reagiu, mas já foi muito tarde. Quando chegou até o vestido, este não era mais do que farrapos sujos espalhados pelo chão. O xeque, com os olhos cheios de lágrimas, pôde ver então como o fantasma da atriz morta cinquenta anos atrás se elevava pelos ares com um sorriso enigmático, como se tivesse interpretado o seu último papel.


© Frantz Ferentz, 2011

domingo, 19 de junho de 2011

Imune.- Frantz Ferentz

O Pierpaolo tinha uma paixão na vida: a poesia. E como consequência dela, tinha outra: as mulheres. Isto não é o que parece, porque o Pierpaolo fora fiel à sua dona vinte e cinco anos da sua vida, embora tivesse apaixonado dúzias de mulheres ao longo da sua carreira literária. 

Esta era, precisamente, a chave. Gostava de apaixonar mulheres, mas não para depois ter uma relação com elas. Tinha virado uma espécie de caçador de corações, mas não para depois tirar proveito, não, simplesmente para os conquistar. Uma volta ganhados, já não os queria. Essa crueldade final era a razão do seu prazer.

Para conquistar uma dona, usava a sua poesia. Nunca na sua vida publicou um só livro de poesia. Ele apenas escrevia versos de paixão sublime que fazia chegar às vítimas escolhidas. A vítima, aos poucos, caía rendida aos seus pés. Apaixonava-se por aquele insigne poeta, aquele ser divino, aquele homem que, com certeza, sabia elevar a alma até aos céus. O Pierpaolo sempre escolhia mulheres casadas ou, pelo menos, com casal fixo, as quais, quando caíam rendidas, pediam ingenuamente o divórcio ou a separação aos seus maridos ou casais. E o poeta cabrão, quando tinha a sua presa aos pés, vencida e divorciada, ignorava-a.

Aquele ser fingia uns sentimentos elevados que nem remotamente possuía. De facto era aquilo uma vingança por aquele primeiro amor que nunca calhou. Embora chegasse a casar-se, o Pierpaolo decidiu vingar-se de todo o género feminino. A sua dona, coitada, não sabia nada daquelas atividades do seu homem, daquele contável rigoroso e rotineiro que se fechava no escritório da casa para fazer contas e contas, sem imaginar que entre cálculo e cálculo compunha versos de paixão mortal. Pelos restos, depois ia com os seus cadernos feitos em casa, com agrafos e capas de cartolina, ao café mais literário da cidade, onde contatava com as suas vítimas e as conquistava até as privar da sua dignidade de mulheres. Assim, uma após outra iam caindo naquela morte lírica, como ele a chamava, enchendo o ego daquele ser que em qualquer parte teria passado despercebido, salvo no inferno.

Até que conheceu a Lavínia. Quando a viu pela primeira vez com aquela amiga no café literário, o Pierpaolo pensou que com aquela mulher alcançaria o summum da sua carreira de assassino lírico. Era uma deusa, espetacular, duma beleza impossível de definir. Quase até começou a se sentir atraído por ela, mas teve cuidado de reter os seus sentimentos, não fosse que chegasse a se apaixonar e aí a sua vida perdesse todo o seu sentido.

Gostava de como soava o riso da Lavínia, provocador e fresco. Não lhe custou especialmente achegar-se até ela e dar-lhe a conhecer os seus versos, como sempre fazia. Ela mostrou-se interessada neles, mas também cumpre dizer que o Pierpaolo intensificou a força da sua escrita, porque aquela mulher divina era uma peça ainda mais cobiçada e, portanto, requeria duns versos diferentes. Além disso, com a Lavínia comunicava-se em inglês, porque ela era dum país da Europa do Leste. Embora pudesse ler os versos do Pierpaolo na língua original, a comunicação entre o homem e a mulher ficou estabelecida em inglês. E foi assim que ela lhe falou do Leo:

— I will show Leo your poems. Leo also loves poetry.

O Pierpaolo estava acostumado. Muitas das suas vítimas chegavam a mostrar os seus poemas aos seus maridos, o qual ainda tornava as cousas mais interessantes. Sorriu perante a visão do Leo a ler os seus poemas.

— Leo is fascinated with your poetry, Pierpaolo... 

Pola primeira vez, também um homem ficava enganchado à sua poesia. A situação era totalmente nova. Aquilo era um desafio para ele. Gostava da nova experiência.

— Leo and I spent the whole night reading your poems...

Aquilo já começava a ser mesmo estranho. Como era possível? Mas o mais complicado de compreender veio quando ela disse:

— Leo and I made love like never before surrounded by the echo of your verses.

O Pierpaolo não percebia. Pela primeira vez na sua vida, os resultados eram os contrários do esperado. Não conseguia namorar a sua vítima de si próprio, mas tudo acontecia inesperadamente, a Lavínia parecia cada vez mais namorada do seu Leo... graças aos seus versos!

Finalmente um dia ela disse-lhe:

— Leo is looking forward to meeting you.

Isso nunca tinha acontecido, que o casal duma das suas eventuais vítimas quiser conhecê-lo, mas o Pierpaolo sentia-se curioso, queria conhecer aquele Leo que gozava da leitura de versos com aquela deusa. Por isso, aceitou.

— Pierpaolo, this is Leo.

O Pierpaolo ficou a olhar para aquele homem com traços efeminados que lhe tendia a mão e que estava a tomar um café vienense. O Leo, porém, sim falava italiano fluído.

— Encantado de o conhecer, Pierpaolo.

O Pierpaolo já apenas tinha uma dúvida:

— E diga-me, o seu nome Leo, donde é que vem? De Leopolodo ou de Leonardo?

— De Leocádia, vem de Leocádia. Mas eu sempre prefiro Leo... Assim até soa mais misterioso, não acha?

© Frantz Ferentz, 2011

sábado, 18 de junho de 2011

O que a vassoura esconde.- Frantz Ferentz

Quando o Paulo chegou a casa eram as oito e um quarto do serão. Não vinha do trabalho, vinha do bar. Se alguém nesse momento tivesse estado a vinte centímetros dele teria detectado que no seu alento se misturavam duas partes de cerveja com quatro de conhaque e três de batatas picantes. Ter beijado o Paulo nesse momento poderia ter sido uma experiência de alto risco, mas não é que o Paulo fosse um homem estranho, mais bem o contrário, era um homem absolutamente normal, de vida normal, num bairro obreiro duma cidade capital, cujos gostos básicos se reduziam ao futebol e a falar de mulheres espetaculares com que nunca teriam sexo.

Quando o Paulo chegou à casa vinha com fome. Queria jantar. Estranhou-se de que o seu fino olfato não recebesse o cheiro de algo cozer na cozinha. Tampouco sentiu a dona. Onde caralho andava a Teresa? Demorou vinte minutos até ficar convencido, mas afinal houve de admitir que em casa não havia ninguém, que a Teresa não estava. O único que encontrou estranho foi a vassoura apoiada na mesa da sala das comidas E apegada à vassoura uma nota amarela, bem visível. O Paulo arrancou a nota e começou a ler nela. Dizia assim:
«Não quero mais ser a tua escrava. Apresento-te a tua nova dona, a vassoura. Se ao certo te importo, demostra-mo, varre pelo menos a casa. Teresa».
O Paulo ficou paralisado. Não se esperava aquilo. Varrer? Ele nunca tinha varrido na sua vida. Nem sabia como se fazia. Tinha observado descuidadamente a Teresa fazê-lo alguma vez, mas com certeza duvidava que fosse capaz de fazê-lo; de facto, achava que aquilo seria mais complicado do que  jogar uma partida de futebol com um só pé.

O Paulo observou que o sol caía por trás as casas em frente. Tinha fome, mas também curiosidade, uma curiosidade inexplicável que o impulsionava a varrer. E varreu. Começou a o fazer dum modo instintivo, mas compreendeu que a técnica consistia em passar o cabelo da vassoura pelo chão para recolher a porcaria que havia. Ele, entretanto, sujeitava o corpo dela, da vassoura. Varreu o comedor e ficou satisfeito.

Depois contemplou a vassoura. Por alguma estranha razão, gostava dela, da vassoura. A Teresa tinha razão quando lhe dizia: «apresento-te a tua nova dona». Teve uma ideia disparatada. Recolheu um vestido da Teresa e vestiu a vassoura com ele, mas com um cabide por baixo para o vestido se sujeitar.

No dia seguinte, o Paulo tirou o vestido à vassoura e varreu o corredor. E foi então que descobriu que a vassoura o fazia feliz. Depois de varrer, olhava para ela. Os cabelos da vassoira, cobertos de pó, excitavam-no como um louco. E o melhor era que a vassoura nunca se queixava. Depois varreu já o resto da casa. Varreu com paixão, deixando escapar gemidos de prazer mentres passava a vassoura pelos recantos mais recônditos onde a merda lutava por sobreviver. Havia compenetração entre eles. E então notou que ejaculava. A vassoira causava-lhe um prazer imenso.

Mudou a fechadura da porta para a Teresa não voltar. O Paulo era feliz com a vassoura, a sua nova namorada. Começou a chamá-la Espigas, pela cor dos seus cabelos. Nunca na sua vida o Paulo tinha sido tão feliz. Nunca, até que se apercebeu de que na casa também tinha um esfregão, cujos cabelos, quando estavam molhados, o excitavam ainda mais.

© Frantz Ferentz, 2011

Os pesadelos do corretor (5).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça.

O corretor de exames já não se tem em pé. Tem um sono impossível de quantificar, mas também tem fome. Pensa que pode deitar bolachas no leite e fazer-se uma espécie de puré. É uma fixação da infância que lhe permite resistir desperto ainda algum tempo. Porém, a percepção da realidade do corretor está muito diminuída, terrivelmente reduzida. Tanto é assim que apanha vários exames e os mete no caço onde já ferve o leite. Automaticamente começa a bater neles até despedaçá-los e convertê-los num puré de pasta de papel. Porém, também por hábito, deita cacau no leite. 

Come direitamente do caço. O seu subconsciente apercebe-se de que o sabor não é o habitual. O seu cérebro reativa-se. Aquilo sabe a... papel. Descobre com horror que não empregou bolachas, mas exames. Conta os exames que misturou com o leite. Não são muitos, cinco. Buf, mas é terrível, não pode permitir-se fazer estas cousas... E então, acontece aquilo.

É algo inexplicável, alheio a qualquer lógica. Trata-se dum processo que, se o corretor não fosse homem científico, qualificaria de magia. O que acontece —vamos desvelá-lo já— é que o corretor, através da ingestão dos exames, é capaz de corrigi-los. Aliás, sabe quem é o estudante que fez o exame, o seu estômago também lê o nome do aluno.

O corretor nem hesita. Apanha a montanha de exames e começa a preparar um puré de leite com papel de exames. Por sorte tem fome demais. Janta como um animal, arrota e arrota, mas tem que abrir espaço na sua barriga para tal carga de exames. Entementes, aponta os nomes dos estudantes e as suas notas.

Duas horas depois tem feito a digestão. O corretor não pode estar mais contente. Descobriu o modo de corrigir e fazer algo de que gosta imenso: comer. Aliás, também se apercebeu de que deitando um bocadinho de canela no leite a ferver com o papel, os exames têm mesmo bom sabor.

Pela manhã vai contente para a faculdade. Tivera mesmo tempo de dormir pela noite. Mas então apercebe-se dalgo. Como vai fazer para mostrar aos estudantes os seus exames quando queiram revê-lo?

O corretor começa a suar. Ainda não foi ao banho. Timidamente, no seu cérebro, surgem duas perguntas: haverá algum estudante que aceite fazer revisões na casa do banho? E por que todos os alunos têm essa mania de rever exames? Sabe que qualquer coisa é possível com a nova legislação universitária. Felizmente, do cheiro final dos exames não se diz nada.


© Frantz Ferentz, 2011

domingo, 12 de junho de 2011

Os pesadelos do corretor (4).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça.

O corretor, no meio da desesperação que lhe supõe tudo aquilo, lembra aquele conto infantil onde um sapateiro é ajudado por uma legião de seres mágicos, não lembra se gnomos, anões ou aranhas, mas a questão é que enquanto ele dorme, os seres mágicos fazem os seus sapatos no seu atelier. Quando se ergue de manhã, encontra que o trabalho está tudo feito.

O corretor pensa que, por vezes, os sonhos tornam-se reais. Enquanto se concentra nesse pensamento, cai dormido sobre a mesa dos exames. Mas o seu sonho se torna real. Não é que venham gnomos ou anões, mas vêm as personagens das suas bandas desenhadas, todos os herois que têm nos seus álbuns ilustrados. Saem ali Superman, Batman, Tarzan, o Capitão América e todos os clássicos. Enquanto o corretor dorme como um anjinho, roncando sonoramente, os herois põem-se de acordo para corrigir tudo o que há acima da mesa. São de papel, por isso tratam o papel com especial cuidado.

Trabalham toda a noite na correção dos exames, a procurar não fazer qualquer ruído para não acordarem o corretor. Coitado, vê-se que já não pode com a sua alma.

E quando o sol começa a aparecer pelo terraço, desaparecem, voltam para os álbuns ilustrados sem serem escutados por ninguém. E então finalmente desperta o corretor. O seu primeiro pensamento é: «Ó, meu Deus, adormeci e não corrigi os exames». Mas a sua surpresa é gigante quando vê que todos os exames estão perfeitamente alfabetizados e corrigidos diante dos seus olhos. Lembra a fábula dos gnomos e do sapateiro. Terá algo a ver? Toma o café depressa e acende a rádio para ouvir as notícias. Dão uma notícia incrível: quarenta estudantes —que casualidade, são estudantes do corretor— apareceram na cadeia de modo inexplicável com uma nota da Liga da Justiça que dizia: «Que fiquem aqui fechados até apreenderem o valor do estudo; outramente, serão futuros criminosos». 

O corretor prefere não acreditar no que a sua fantasia lhe indica. Mas, por acaso, leva os seus livros de banda desenhada a um alfarrabista e troca-os por livros de fábulas infantis onde saiam gnomos e anões trabalhadores.

© Frantz Ferentz, 2011

Os pesadelos do corretor (3).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça. Porém, algum ser mágico, misterioso, místico e certamente invisível ouve os desejos do corretor. Não existe uma máquina corretora, mas sim uma inteligência corretora.

Quando o corretor está a lutar contra o sono porque já as suas pálpebras são de chumbo, soa a campainha da porta da casa. O corretor levanta-se automaticamente, é um mecanismo instintivo que o leva até a porta do apartamento com a caneta entre os lábios.

Quando abre, reage. É a sua colega Lídia. A Lídia vem com um cãozinho coberto de lãs, ao qual apenas se vê o focinho, uma bola preta a salientar entre as lãs. 

— Notícia bomba, meu. Este cãozinho sabe corrigir exames.

— Obrigado por tentar encorajar-me. Boa noite, vemo-nos amanhã na faculdade...

Mas a Lídia põe o pé entre a porta e o quadro. Evita que a porta feche. O corretor nem pode reagir. Está demasiado cansado. Ela entra. Vai até o estúdio dele. Apanha vários fólios. Escreve neles os números desde o 0 até ao 10. Coloca-os no chão. Depois coloca os exames numa coluna também no chão, ao lado do fólio com o número 0.

O cão não tem que ouvir qualquer mandado. Já sabe o que tem que fazer. Começa a ler o primeiro exame, faz um barulho muito engraçado, como se for uma engrenagem oxidada. Morde a esquina com cuidado e coloca o exame sob a folha que põe 6. E depois, sem pausa, vai para o seguinte exame. Lê nele. Decide e leva-o para a nota 8. E assim continua a fazer com o resto dos exames.

— Estás a ver? —pergunta a Lídia ao seu colega, que não pode acreditar o que lhe mostram os seus olhos.

— Estou...

— Bom, olha, aqui o amigo corrige isto numa hora. Convido-te a uma cerveja...

— Não deveria...

— Deixa-o estar, pá, vem.

O corretor deixa-se arrastar pela colega. Vão a um bar não muito longe onde a cerveja é boa. Cai uma, duas, três, quatro... O corretor nem lembra se nalgum momento beija a colega. Sempre desejou fazê-lo, mas nunca teve coragem. Porém com a cerveja... Aliás, por que ela é tão amável que vem na sua ajuda com o cão? Algo deve haver, pensa o corretor ainda que na sua mente as névoas etílicas ocupem todo o espaço.

Quando volta para a casa, o corretor pensa que talvez poderia sussurrar à colega que poderiam ter sexo. Sente-se satisfeito, tem a certeza de que o cão terá acabado a correção. Abre a porta da casa. Ela rodeia a cintura dele. Que bom panorama. No estúdio, o cão, com efeito, acabou as correções. O corretor, antes de se insinuar que tudo está correto, quer comprovar que os montões estão corrigidos. Verifica apenas dois exames. O cão pontua muito bem. É genial. Não olha muito já. Empurra a colega. Ela também quer loucura aquela noite, paixão para depois esquecer.

Quando na outra manhã o corretor desperta, vai ver se tudo está em ordem. O cão dorme no sofá. Ele mesmo fora capaz de abrir o frigorífico e lá apanhara umas salsichas. É muito inteligente esse cão. O corretor começa a recolher as pequenas colunas do chão. Três estudantes com 10, seis com 9, vinte e quatro com 8. Impressionante como corrige o cão.

Até que chega ao 4. A coluna está molhada. Como assim? O corretor apercebe-se então que o cão tem mijado na coluna do 4. E também na do 3, na do 2 e na do 1. Mas o pior é que na coluna do 0 (há por volta de cinco estudantes que deixaram o exame em branco) o cão cagou.

Alguém deveria ter explicado ao cão que julgar um exame é apenas pôr-lhe uma qualificação, não expressar as opiniões fisiológicas acima dele. O corretor percebe que tem um problema. E logo descobre outro. Por causa da bebedeira da noite anterior dá-se conta que confundira a sua colega com o vizinho homossexual da porta do lado, o qual  está a olhá-lo com olhos lascivos desde o limiar da porta do salão em tanga exigindo outra ração de sexo antes do amanhecer.

© Frantz Ferentz, 2011

Os pesadelos do corretor (2).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça.

O corretor fica toda a noite em branco. Não dorme. Trabalha como um gnomo da floresta. E finalmente, pela manhã, acaba a correção. Mete todos os exames na caixa de cartão. Se calhar, não é digno para os exames irem dentro de uma caixa de cartão, mas para ele, para o corretor, é a única forma de transportá-los. Na sua mente há apenas dois desejos: entregar os exames e depois dormir, dormir muitas horas, dormir com o telemóvel desligado para se evitar surpresas.

O corretor é um asceta. Como sabe que não está em condições de guiar o auto, viaja de metro. Tem que ir em pé, com a caixa dos exames nas mãos. Pesa, pelo menos, oito quilos. Da boca do corretor não sai uma simples queixa, embora o pisem, lhe metam o cóvado entre as costelas, lhe redesenhem um olho... Sofre em silêncio, como um valente, porque é um profissional e a dor vai incluída no seu salário.

Quando chega à faculdade, vai direito para o escritório do decano. O decano capitaliza todos os exames, quer vê-los antes de irem para os informáticos, os quais passam as notas para os computadores. O decano não gosta do corretor, espreita-o como o lobo espreita o borrego, porque quer deitá-lo para a rua, porque se trata duma faculdade privada, de capital privado, com estudantes que são clientes e onde o proprietário do negócio, isto é, a faculdade, pretende ganhar muito dinheiro. E nestas circunstâncias, o corretor não é rendível, embora cobre uma merda, e, aliás, pensa sozinho. Perigoso.

— Bom dia, trouxe os exames —diz o corretor fazendo um esforço sobre-humano para a sua voz soar normal.

O decano grunhe. É a sua forma de cumprimentar. O grunhido pode significar tanto «bom dia» quanto «que te deem pelo cú». Abre a caixa de cartão. Começa a extrair os exames. Surpresa. Os exames estão sem corrigir. Estão igual que quando o corretor os recolheu. Não há nada escrito neles.

O decano sorri. Já tem motivo para expulsar o corretor. O corretor, pelo seu lado, percebe o que tem acontecido. Olha para a caneta que ainda tem no seu bolso. É uma caneta trucada. Tem uma tinta especial que primeiro se vê, mas depois desaparece. Precisamente insistiram-lhe que empregasse aquela caneta, oficial na universidade. O corretor sabe que está atrapado. O decano sorri mais e mais. O corretor já nem ouve as asneiras que o outro larga sobre a sua incapacidade profissional e intelectual.

Sem dizer uma palavra, o corretor sai do escritório do decano. Ninguém nota, nem o próprio decano, que a porta do seu escritório fica trancada. Impossível abri-la. Tampouco se dá conta de que o fio de gasolina que deixou o corretor cair da sua algibeira vai direita para a alcatifa persa. Quando o corretor esteja a poucos metros do gabinete do decano, o quarto começará a arder mercê a um quase invisível fósforo. Pode ser que o decano se salve ou não, ele não se importa. Mas uma cousa é segura: os exames de toda a faculdade queimarão lá dentro.

Será responsabilidade do decano, que fuma no seu gabinete, pensará a polícia e até mesmo a secretária do decano. Mas ele, o corretor, ficará livre de toda culpa. Porém, quando as chamas começam a surgir, ele, o corretor, já vai caminho da cama. E na altura, até se permite ir de táxi.

© Frantz Ferentz, 2011

Os pesadelos do corretor (1).- Frantz Ferentz

O corretor tem diante de si duzentos quinze exames. Como sempre acontece, o período de correção é muito breve e deve entregar os exames para o dia. É virtualmente impossível, mas depois do tempo que já dedicou ao trabalho, sabe que não poderá ficar mais tempo ali sentado a contemplar aquela coluna de papel que ainda é muito alta. No seu delírio, deseja que alguém tenha inventado a máquina de corrigir exames, mas sabe que isso é impossível, ninguém no mundo fez tal coisa ainda, por desgraça.

Sabe que tem que ir dormir. Se calhar, por pouco tempo, mas é preciso fazer uma pausa e recuperar umas mínimas energias. Com muito esforço —já nem tem forças físicas— vai para a cama devagarzinho, muito devagarzinho. Deixa-se cair nela. Se calhar, alguma mola soa por baixo. Talvez algum quebrou. Não faz mal. Tem quatro horas para dormir, mais nada.

Porém, dormir não é sinónimo de descansar. Enquanto dorme, sonha. Sonha que está ainda sentado na mesa de estudo e que segue a corrigir. Corrige sem descanso. Corrige como um possesso. A coluna desce devagar, mas ele sente que o seu espírito está a cair de cansaço, sente-se como se a alma lhe escoasse pela cloaca. É impossível exprimir aquelas sensações que deixam o indivíduo sem energias. 

De repente soa o despertador. As malditas quatro horas pareceram dez minutos. Arrastando os pés, o corretor, sem ainda ter mesmo tomado o café, vai para a mesa de trabalho. Descobre com surpresa que a coluna dos exames pendentes para corrigir desapareceu. Todos os exames estão já na coluna dos corrigidos. Incrível. Começa a suspeitar que a sua obsessão por acabar a correção obrigou-o a não dormir de noite, que na realidade é sonâmbulo e que, em vez de dormir, passou as quatro horas a corrigir dormindo. 

Vai para a cozinha. Incrível, o café também está já preparado. Mas há duas bicas prontas. Não entende como é que fez aquilo. Mas é assim. Se calhar, quando é sonâmbulo nem controla o café que faz. Porém está contente. Vai depois para a casa do banho, toca fazer chichi.

Mas é ali que descobre o vizinho. Está sentado na retrete. Dorme. Mesmo ronca. Não percebe. Sabe que o vizinho tem chaves de casa. Na mão tem um marcador vermelho. Então o corretor percebe tudo. Não foi ele o sonâmbulo que corrigiu tudo de noite. Foi o vizinho. É um vizinho sonâmbulo. Por que o faria? Estará apaixonado por ele?

De repente o corretor acorda. Tudo foi um sonho dentro dum sonho. Os exames estão lá acima da mesa, sem corrigir. Não há café feito, não há vizinho no banho. O corretor larga um cagamento. Lembra-se de Calderón de la Barca e do seu «los sueños sueños son». E o pior é que o corretor adormeceu, não sentiu o despertador e já vai com demora...

© Frantz Ferentz, 2011

sábado, 11 de junho de 2011

Tacto.- Frantz Ferentz


Quando o Alberto se casou em segundas núpcias com a Aurora sabia que no pacote vinha aquele pequeno ser odioso chamado Avelino, mais conhecido como Ave. Ele estava muito apaixonado pela Aurora, portanto pensou que seria fácil aguentar aquela criança de cinco anos que olhava tudo com olhos imensos.

 O Alberto e a Aurora casaram-se quando a criança fez oito anos. Foram viver a um apartamento qualquer, num bairro qualquer, duma cidade qualquer. Moravam no andar do rás-do-chão. O Ave gostava de passar as horas no pátio, pelo qual as suas vozes subiam por ele e eram ouvidas por todos os vizinhos. Após duas semanas de a família viver ali, aquele garoto era o ser mais odiado da habitação, até extremos insuperáveis, sempre a jogar com o seu amigo invisível, ao qual dava conselhos, ordens e até benções.

Mas o pior para o Alberto não era isso. O pior é que amiúde a criatura entrava em casa e espiava o que o Alberto fazia. Depois ia para a mãe e dizia-lhe: "O Alberto está a jogar ao computador... o Alberto está a ver uma partida de futebol na televisão... o Alberto está a ler no banho..." E tudo isso vinha acompanhado do "quem te quer mais do que eu, mámi? Eu quero-te tanto, mamãezinha... Vou querer-te ainda mais...".

O Alberto percebeu que o seu matrimónio com a Aurora perigava. Aquele pequeno terrorista emocional podia acabar com tudo. Era preciso pôr fim àquele pesadelo. O Alberto já sabia o que ia fazer. Esperou que o Ave chegasse da escola. O Alberto já estava à sua espera no quarto. Tinha deixado uma caixa de cartão na cama.

— O que é que andas a fazer aí? —perguntou o menino já a suspeitar.

O Alberto apenas sorriu.

— O que é que andas a fazer? —repetiu o menino a pergunta.

— Cá dentro está o teu amigo invisível —disse o Alberto—. Acabo de lhe pôr um dispositivo por baixo da pele que é impossível de tirar. Apenas tenho que premer um botão e o teu amigo invisível sairá a voar pelos ares. Estás a perceber?

O Ave engoliu saliva. Percebia, claro que percebia.

— Bom, se queres que o teu amigo invisível siga a ser o teu amigo invisível, tens que fazer duas cousas: uma jogar com ele em silêncio. Ele sabe o que queres. E duas: não digas mais vezes à mamãe o que estou a fazer. Fica calado. Combinado?

 O Ave assentiu com a cabeça. O Alberto saiu do quarto satisfeito.

Porém, dois dias mais tarde, a Aurora comentou preocupada com o Alberto justo antes de irem dormir:

 — Estou preocupada pelo miúdo.

— Como assim?

— Fez uma coisa impossível de entender: abriu o teu armário e arrancou todos, mas absolutamente todos, os botões das tuas camisas e das jaquetas. Sinceramente, não sei por quê lhe veio agora essa mania...


© Frantz Ferentz, 2011

REFORMATEANDO A REALIDADE

                                                                                                                                                           
                                                                    Frantz Ferentz                                                                
.                                                                                                                                                          
.                                                                                                                                                          
.                                                                                                                                                          
         REFORMATEANDO A REALIDADE           
                                                                                                                                                           
                                                                                                                                                           
.                                                                                                                                                          
                                                                                                                                                           
.                                                                                                                                                          
.