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domingo, 6 de agosto de 2017

A PROFECIA DO APLICATIVO


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O aplicativo do prognóstico do tempo do meu telemóvel nunca se engana, nunca. Por isso, devo reconhecer que hoje tenho medo, pois há um bocado deu a previsão para amanhã: «Chuva de meteoritos. Inútil onde te esconderes. Será o fim do mundo».

© Frantz Ferentz, 2017

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

OFERECER A LUA

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«Vou-te oferecer a lua», prometeu ele. «Romântico», pensou ela a sorrir. Mas quando três dias depois acordou soa na Lua com oxigênio e comida para uma semana, compreendeu que aquilo não era uma promessa, mas uma vingança.

© Frantz Ferentz, 2017

VOCAÇÃO DE PIRATA

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Em criança, sempre sonhara com ser pirata e viver do que roubasse, mas quando cresceu, entendeu que os feros, sujos e feios piratas evoluíram e já não pilotavam barcos, agora sentavam em gabinetes, tomavam duche e vestiam gravata. Porém, como aquele seu sonho continuava vivo, também ele virou banqueiro.

© Frantz Ferentz, 2017

sábado, 22 de julho de 2017

O DOM ESPIRITUAL


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«Eu tinha um dom espiritual», disse ela. «Era capaz de saber quem me mentia e nunca me enganava. Mas perdi esse dom».
«E logo, como foi que o perdeste?»
«Porque comecei a mentir e apreendi a engarnar-me a mim mesma...»

Frantz Ferentz, 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017

DIAS DE CARRAGEM

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No final do primeiro dia, mal chegara a 25%. No final do quarto dia, nem sequera terminara, aindava a 92% e parecia não querer continuar. Por isso, antes da meianoite daquele mesmo dia, ele estourou, a sua ira venceu-o e perdeu a cabeça. No quinto dia, um juiz processou-o por tentativa de homicídio por lançar o computador pela janela para a rua e quase esmagar um peão, Na sua defesa, o acusado apenas disse: «O puto do Windows não se atualizou em quatro dias e venceu-me a carragem, senhoria».

© Frantz Ferentz, 2017

DE TÁXI

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Ela tomou um táxi sob a chuva. As suas lágrimas confundiam-se com as pingas de chuva.
«Para onde, minha senhora?», perguntou o taxista.
«Para onde quiser», respondeu ela entre soluços.
«Que tal para a felicidade?», propôs o taxista.
Antes de ela aceitar, olhou para a carteira. Queria saber se teria dinheiro a mais para pagar o trajeto.


© Frantz Ferentz, 2017

DA ALMA

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Passou a vida toda a resolver dores alheias, dores de todo género, dores superficiais e dores profundas, dores físicas e até espirituais. Sempre tinha querido saber donde vem a faculdade da sua alma de aliviar as dores. Até hoje, porque, por fim, já entendeu que a clave é descobrir de que está feita a sua alma. E já sabe: de ácido acetilsalicílico.


© Frantz Ferentz, 2017

ACHADOS E PERDIDOS

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«Boa tarde. Gabinete de achados e perdidos. Como posso ajudá-lo?».
«Boa tarde. Sim, verá, perdi algo muito importante para mim e queria saber se o têm aí, porque já não sei onde o procurar».
«Claro, diga-me de que se trata».
«Da esperança»


© Frantz Ferentz, 2017

COERÊNCIA

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«Juro-ťe que sou vegano», berrou o homem.
«Mas eu não», retrucou a planta carnívora antes de engolir o homem de um só bocado.


© Frantz Ferentz, 2017

AS COITAS DO INTÉRPRETE

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—Você está a inventar a maioria do que diz a testemunha —estourou cheio de ira o promotor perante o intérprete
O juiz pôs um rosto grave e perguntou ao intérprete.
— É isso verdade?
— É, senhoria. Mas na minha defesa direi que a testemunha está a inventar o idioma sobre a marcha.
O juiz olhou para a testemunha e viu o seu sorriso quase já riso. Se calhar, o intérprete dizia a verdade. O juiz leu a ficha da testemunha e viu que era licenciado em Letras. Só então entendeu porquê era tão complicado interrogar um filólogo ocioso.



© Frantz Ferentz, 2017

A CONFISSÃO

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— Mamã —disse o moço muito nervoso—, hei-ťe confessar algo: sou homossexual. 
A mãe nem olhou para o filho, limitou-se a dizer: 
—Já sei há muito tempo, meu... mas isso não é escusa para não pores calções limpos todos os dias. E se amanhã tens um acidente e te levam para o hospital, eh?



© Frantz Ferentz, 2017

O SEGREDO DA INSPIRAÇÃO

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Cada vez que ele se dispunha a escrever, seguia sempre o mesmo ritual. Despia-se e descalçava-se, fechava-se no seu gabinete, sentava no chão sobre a alcatifa e começava a escrever no seu portátil sempre rodeado de litros e litros de cerveja. Ele sempre atribuiu a sua capacidade criativa aos efeitos do álcool que tomava em quantidades industriais, mas enganava-se. Era o seu próprio fedor de pés que empurrava o seu cérebro para estados de consciência alterados.

© Frantz Ferentz, 2017

O SANGUE DO POEMA

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Ele derramou sem querer o vinho dela sobre aquele poema tão ruim que lhe passaram numa folha. O papel virou vermelho e as letras começaram a mudar de lugar. Quando o papel secou, já não havia poema, mas a receita em verso da felicidade. A seguir, recolheu os piores poemas que lhe foram enviando e começou a banhá-los em vinhos diversos que ela tinha na casa, só por experimentar. Conseguiu a receita da invisibilidade, a de respirar sob a água e outras que não pôde utilizar, porque as receitas em papel, para funcionarem, tinham de ser engolidas após serem metamorfoseadas graças ao vinho. Porém, ele era intolerante ao álcool e às rimas fáceis.

© Frantz Ferentz, 2017

DE FUMATORIBUS (II)

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De repente, começou a ouvir uma tosse constante ao seu lado, mas nunca via ninguém. Aquela tosse pô-lo ainda mais nervoso. Passou de fumar 30 cigarros diários para 40. Era um tosse de doente, mas não era dele nem de ninguém que estivesse ao seu lado. Era uma tosse constante. Dia e noite, tanto que o acordava durante o sono. Até que um dia desapareceu a tosse, tão repentinamente como chegara. O homem suspirou aliviado. Prendeu um cigarro para celebrá-lo. Na distração não viu o camião que lhe caía em cima. Segundos antes de morrer por causa do golpe, perguntou-se porquê não o salvara o seu anjo da guarda, mas o seu anjo da guarda havia já um bocado que morrera de cancro de pulmão.

© Frantz Ferentz, 2017

DE FUMATORIBUS (I)

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«Meu amor, tu entendes isto? Desde que fumo este novo tabaco de enrolar que tu me trazes, não gosto nada de carne e só quero comer erva... Mas olha que gosto dele, vê-se que é de qualidade, tem de ser de importação», disse ele. Ela pôs cara de ignorante, por nada do mundo ia dizer ao seu homem que o tabaco que ela lhe fornecia era uma mistura de erva seca e estrume moído. Porém, aos poucos a ele saíram-lhe chifres e intercalava a sílaba "muu" no meio do seu discurso, mas eram cornos mui fofos, podiam-se rasurar com uma lâmina. Por nada do mundo ia ela deixar sem fumar o seu esposo para que ele se tornasse violento. Amava o seu homem assim, com aquel barrigão fofinho, e mais ainda como ele a beijava com beijos de vaca.

© Frantz Ferentz, 2019

E FOI

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Morreu a 21 de agosto de 2017, ela soa no seu apartamento. Os vizinhos mal comentaram no início o estranho que era não tê-la visto polas escadas, mas já depois nem isso. O seu carro ficara cheio de pó na garagem, sem ninguém o mexer. Porém, os bombeiros não entraram na sua habitação até 3 de fevereiro de 2024, quando acabaram todos os aforros dela no banco e já não foi pago o aluguer. Um juiz ordenou que o apartamento fosse despojado. Porém, só toparam o cadáver dela mumificado, não havia nada donde tirar dinheiro. Nada? Erro, a múmia acabou num leilão e foi comprada por um antiquário que depois a revendeu a bom preço como amuleto para alongar a vida das poupanças.

© Frantz Ferentz, 2017

O ASSUSTADOR DE CÃES

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O seu ofício era assustador de cães. Ninguém sabia como fazia, mas quando ele caminhava pela rua, os cães deixavam de ladrar e iam embora. As pessoas pensavam que talvez usasse um aparelho de ultrassons ou que produzisse um cheiro repelente para os animais ou até que ele fosse um lobisome. Porém, a verdadeira razão para os cães o temerem tanto era muito simples: ele próprio era um filho da cadela.

© Frantz Ferentz, 2017

VINGADOR

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— Eu não lixo as mãos em vinganças —disse ele a degostar o café quentinho—. Tenho alguém que faz o trabalho sujo por mim. 
— Como é que se chama quem ťe faz o trabalho sujo? —perguntou ela.
— Karma. Chama-se Karma.

© Frantz Ferentz, 2017

ÍNTIMO ADEUS

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«Vou enterrar algo íntimo de meu», disse. Todos pensaram em cousas como a dignidade, a infância ou a consciência. Porém, o que enterrou foi o seu mais íntimo companheiro, o seu patinho de goma.

© Frantz Ferentz, 2017

DESENCANTO

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Quando afinal encontrou o amor da sua vida, infelizmente era tarde: já tinha gastado todo o seu amor. 

© Frantz Ferentz, 2017

ILUMINAÇÃO


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Quando afinal entendeu que o que ele dizia, escrevia ou pensava não interessava a ninguém, alugou-se como animal de estimação.

© Frantz Ferentz, 2017